A valorização do contador está diretamente ligada à sua capacidade de identificar riscos estruturais com antecedência. E atualmente, o endividamento bancário representa um dos principais fatores de comprometimento da saúde financeira das empresas.
Nesse contexto, o seu papel se torna extremamente importante. Diferente do empresário, você não está envolvido emocionalmente com o negócio, nem contaminado por um otimismo que, muitas vezes, se revela irrealista. É comum existir, do lado do empresário, um misto de otimismo excessivo, negação e normalização do problema. Afinal, empreender no Brasil sempre foi difícil: crises vêm e vão, e as dívidas passam a ser vistas como “mais uma batalha natural”, algo que será resolvido “quando o faturamento melhorar” ou “quando o mercado reagir”. Essa mentalidade, embora compreensível, costuma ser perigosa.
Você, por outro lado, tem a visão fria e precisa dos números. E a ferramenta mais poderosa para esse diagnóstico já está em suas mãos: os próprios demonstrativos financeiros que você elabora e analisa mês após mês. A seguir, cinco sinais objetivos que podem ser identificados diretamente nos balancetes e demonstrativos financeiros e que, quando presentes, costumam indicar que um cliente está diante de um endividamento bancário crítico.
O capital de giro é, por natureza, uma ferramenta para a saúde operacional. O problema aparece quando seu uso se torna crônico e crescente, transformando-se em sintoma de algo mais grave.
Vale observar a linha de empréstimos e financiamentos no passivo circulante: o saldo de capital de giro é liquidado periodicamente ou apenas rola e aumenta? O cliente contrata novos empréstimos de capital de giro para cobrir despesas rotineiras, como folha de pagamento, aluguel e fornecedores?
A pergunta que ajuda a organizar essa análise é se o lucro operacional gerado pela empresa é suficiente para cobrir suas despesas, ou se o capital de giro se tornou um sócio caro e permanente do negócio. Quando isso acontece, a empresa está, na prática, usando uma dívida de custo elevado para pagar as contas do dia a dia, e a margem de lucro, já apertada, vai sendo corroída pelos juros nesse ciclo.
A antecipação de recebíveis é uma ferramenta válida de gestão de fluxo de caixa, mas seu uso excessivo e constante costuma ser um sinal de alerta.
Aqui, o ponto de atenção é comparar o volume de vendas a prazo com o volume de antecipações. Um percentual cada vez maior das duplicatas ou faturas de cartão de crédito está sendo antecipado? O cliente consegue honrar seus compromissos de curto prazo sem recorrer a essa prática?
Quando a resposta é não, geralmente há uma perda silenciosa de rentabilidade envolvida. A empresa está, na prática, pagando um preço alto pelo próprio dinheiro, e o que deveria ser lucro acaba ficando na mesa do banco ou da operadora de crédito, comprometendo a capacidade de investimento no médio prazo.
Este é um dos indicadores mais críticos. Acontece quando, apesar dos pagamentos mensais, o montante total da dívida bancária não diminui, e em alguns casos até aumenta.
O exercício é simples: consolide todos os empréstimos e financiamentos do cliente e some os saldos devedores no início e no fim de um período de um a doze meses. Se o valor total aumentou, mesmo com o cliente realizando pagamentos, é sinal de que as parcelas pagas provavelmente não estão amortizando o principal da dívida, mas apenas cobrindo juros, encargos e a rolagem do saldo.
Quando isso se confirma, é um forte indício de que a capitalização de juros está trabalhando contra a empresa, e de que, sem uma intervenção técnica, a tendência é o agravamento progressivo do quadro.
Uma dívida bem administrada costuma ser estratégica e consolidada. Uma dívida em descontrole, por outro lado, tende a ser caótica e pulverizada.
Vale mapear se o cliente tem cheque especial estourado em um banco, um contrato de capital de giro em outro, um financiamento de veículo em um terceiro, e ainda utiliza o cartão de crédito corporativo para despesas operacionais, sem que exista uma visão unificada desse passivo.
Nesses casos, costuma faltar uma estratégia clara de endividamento: a empresa vai buscando crédito onde ele é oferecido, sem critério de custo ou estrutura. E a ausência de uma visão consolidada torna a gestão do passivo mais difícil, deixando o empresário à mercê de diferentes políticas de crédito, gerentes e formas de cobrança, o que costuma enfraquecer seu poder de negociação.
Quando a saúde financeira da empresa está comprometida, a fronteira entre o CNPJ e o CPF começa a se dissolver. Este costuma ser um sinal mais tardio, mas também mais grave.
Vale observar se o empresário está usando recursos pessoais para cobrir buracos no caixa da empresa, se fez um empréstimo pessoal para injetar capital de giro no negócio, ou se os sócios deram imóveis ou veículos pessoais como garantia em contratos da empresa.
Nesse estágio, a operação da empresa pode já depender de aportes constantes dos sócios para se manter, e o patrimônio construído ao longo de uma vida passa a estar exposto para sustentar o negócio. Sem uma reestruturação técnica da dívida no momento adequado, esse tipo de situação pode se estender para além da própria empresa, comprometendo também o patrimônio pessoal dos sócios.
Ao identificar um ou mais desses sinais, o contador não precisa se limitar ao papel de portador de más notícias. Esse é o momento de se posicionar como consultor e estrategista, levando ao cliente não apenas o problema, mas um caminho possível de solução. A conversa deixa de ser sobre impostos e obrigações acessórias e passa a tratar do futuro do negócio.
Cabe a você conduzir esse diálogo com responsabilidade, sem alarmismo, mas com dados, fatos e projeções que demonstrem, de forma técnica e objetiva, que insistir nesse modelo de sobrevivência aumenta significativamente o risco de comprometer tanto a empresa quanto o patrimônio pessoal dos sócios.
É nesse ponto que o contador se consolida como parceiro estratégico do negócio. Mais do que alertar, sua função passa a ser orientar o cliente a considerar a gestão técnica do passivo bancário, com apoio especializado em Direito Bancário, tanto na esfera judicial quanto extrajudicial, não como último recurso, mas como uma ferramenta legítima de reorganização financeira.
Por meio dessa gestão do passivo, os contratos bancários são analisados de forma minuciosa, identificando pontos que merecem questionamento, distorções e encargos que possam estar em desacordo com a legislação ou com o próprio contrato. A partir desse diagnóstico, é possível construir estratégias que envolvem revisão contratual, negociação qualificada e a busca por condições de pagamento mais compatíveis com a real capacidade econômica da empresa.
A parceria com especialistas em Direito Bancário se apresenta, assim, como uma próxima etapa lógica desse processo, uma forma de transformar um diagnóstico técnico, construído a partir da sua visão privilegiada dos números e da operação, em um plano de ação concreto para preservar o negócio e o patrimônio do seu cliente.
Justiça contra o sistema.
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